Por que não querem ser CIO

Por que não querem ser CIO?. Política, remuneração relativamente baixa e falta de prestígio são apontados como os principais motivos. Mas há outras razões igualmente relevantes

Stephanie Jurenka começou em TI como uma administradora de sistemas há mais de 10 anos atrás. Hoje, ela é uma gerente de TI com absolutamente nenhum interesse no papel de CIO.

“Ser um CIO não oferece a oportunidade de fazer as coisas legais que as pessoas de TI tanto gostam de fazer. Ao contrário. É preciso lidar mais com reuniões, orçamentos e política”, diz Jurenka, que trabalha no Westway Group, em Nova Orleans.

Dan Allen, gerente de TI  da Delta Children, em Nova York, se sente da mesma maneira. Com cerca de 20 anos na profissão, também não tem nenhum desejo de ser um CIO.

“Sim, você tem que aproveitar as oportunidades profssionais que surgem, por isso continuo a trabalhar nas minhas certificações [técnicas] porque quero estar em uma posição de engenharia. O papel do CIO não me atrai. Descobri, anos atrás, que prefiro ser hands-on”, diz Allen.

Jurenka e Allen não estão sozinhos. Em pesquisa recente, realizada pela Computerworld norte-americana entre agosto e setembro de 2013, 55% do total de 489 profissionais de TI entrevistados disseram não aspirar a um posto de CIO. Na verdade, apenas 32% deles gostariam de assumir o cargo. Política, remuneração relativamente baixa e falta de prestígio foram apontados como os principais motivos de impedimento.

No entanto, há uma outra razão para essa mudança de pensamento na carreira de TI. Profissionais de tecnologia estão sendo recrutados para trabalhar em marketing, logística e outras funções fora da TI, com a tecnologia tornando-se mais profundamente enraizada em praticamente todos os aspectos do negócio. Essa tendência está expandindo a carreira de TI na horizontal. Em vez de uma carreira em direção ao degrau mais alto da TI _ o cargo de CIO _  há cada vez mais oportunidades de carreira nas organizações, em outras áreas.

“A onda de negócio digital reacendeu o interesse por tecnologia da informação e tem atraído as pessoas para diferentes áreas de negócio onde a TI pode ter impacto direto na receita, nos mercados e nos clientes”, afirma Diane Morello, analista do Gartner. “Informação e tecnologia são a seiva das empresas, hoje.”

Uma questão de estado

Para Christopher Barron , CIO da Valerus, empresa de serviços de petróleo e gás com sede em Houston, os resultados da pesquisa da Computerworld surpreenderam. “Fiquei surpreso que a porcentagem de trabalhadores de tecnologia que não querem ser CIOs não tenha sido maior”, diz ele.

Barron acredita que os profissionais de TI estejam rejeitando o papel do CIO, hoje, por causa do status relativamente baixo que o título carrega na maioria das empresas. “Se as pessoas estão trabalhando duro para conseguir um título de nível C, querem dizer e fazer alguma coisa”, diz ele. “O que muita gente vê é  CIOs não exercendo o poder ou a autoridade proporcional a um executivo C-level”.

Outro grande desincentivo: “As políticas são infinitas e não há muito respeito pelo cargo”, diz Barron. “O diretoria é bastante apática em relação à posição de CIO. O que eles  querem é um sistema estável para trabalhar e nenhum drama na área de TI. “

Barron gosta do papel de CIO, e acredita que o CIO moderno tornou-se um embaixador dentro do comando executivo das empresas. “O conjunto de habilidades necessárias para ser bem-sucedido não é o que um tecnólogo típico provavelmente possui ou, mais importante, o valor que dá à tecnologia”, observa ele.

Espectadores interessados

A política e as lutas de poder não passam despercebidas. Os funcionários de TI dizem que não pode deixar de notar o tempo gasto com essas questões que o papel de CIO exige. Muitos profissionais de TI, especialmente os mais jovens, não estão dispostos a negociar a possibilidade de terem um trabalho flexível, que equilibre a vida vida pessoal com as funções de trabalho, para colocar o crescimento na carreira de TI em primeiro lugar.

“Assisti a transição do meu VP para o mais alto nível e o tempo que ele dedica a essa posição é muito em relação ao tempo que pretendo dedicar à minha carreira”, diz Jurenka.

“A tendência para fazer mais com menos tem levado a maioria das pessoas a gastar muito mais tempo no trabalho e o nível de produtividade exigido de cada indivíduo está aumentando”, observa Joseph Morgan, programador/analista da Amerigroup, divisão da WellPoint. “Há uma percepção de que quanto mais você sobe, isso só piora e você deixa de ter vida”, acrescenta. “A quantidade de dinheiro que um CIO ganha não compensaa falta de vida pessoal.”

Tudo isso contribui para uma espécie de beco sem saída. Ao mesmo tempo que muitos profissionais de tecnologia aspiram avançar através do foco em tecnologia,  e papéis hands-on, mais e mais esses papéis estão sendo entregues a prestadores de serviços e empreiteiros. Cada vez mais, as carreiras relacionadas à tecnologia que permanecem nas empresas exigem uma espécie de papel híbrido, aliando perspicácia empresarial e experiência em TI suficiente para entender como usar a tecnologia para fazer o negócio prosperar.

O lado positivo desse cenário é que os profissionais técnicos, talentosos, têm espaço para crescer e prosperar com prestadores de serviços totalmente envolvidos com as mais recentes tecnologias e seus usos.

“Há mais planos de carreira dentro da empresa e fora da área de TI, do que costumava ter”, diz Markus Bierl, CIO da Franke Foodservice Systems em Nashville. “É muito mais importante que você conheça e entenda o negócio. Tenho pessoas na minha equipe que vieram das áreas de negócio e pessoas de TI que foram transferidas para uma função corporativa. Uma carreira de TI não é mais um plano de carreira em linha reta, “, diz ele.

O resultado é que os mais técnico dos técnicos estão provavelmente perseguindo uma carreiras de TI como prestadores de serviços, enquanto que os mais orientados para o negócio  estão permanecendo nos departamentos de TI para gerenciarem os prestadores de serviços e supervisionarem acordos com os provedores de serviço ou movendo-se para papéis híbridos, fora da área de TI.

“Em última análise, é a prestação de serviços que está a se transformando em commodity”, diz Donnici, o vice-presidente do núcleo de TI da Quintiles.

CIOs de saúde, serviços financeiros e manufatura contam históriaa similares. As rápidas mudanças nos processos de negócios, o apetite dos consumidores para personalização, a governança sempre crescente e a regulamentação da indústria estão trabalhando para complicar o dia a dia dos negócios. O que eles precisam internamente são pessoas em TI, com conhecimento do negócio e conhecimento profundo da indústria.

“SaaS e consumerização de TI  estão impulsionando uma clara separação entre os dois ramos de uma carreira de TI”, diz Bill Mayo , diretor sênior de TI da Biogen Idec, em Weston, Massachusetts “Nós estamos realizando negócio voltados para TI e trocando os profissionais da área para que se reportem diretamente às áreas de negócio com uma linha pontilhada de relatórios para o líder de TI. “

Allen, da Delta Crianças, concorda com essa avaliação. “Vejo cada vez mais que, no futuro, vou acabar em uma empresa prestadora de serviço, ou em uma consultoria, oferecendo infraestrutura ou software como um serviço”, diz ele. “Mais de nós [profissionais de TI sem aspirações CIO] vão acabar tendo de se deslocar para essas posições.”

No fundo, uma carreira de TI ainda se resume a perseguir uma pista técnica ou gerencial, diz Bob Dulski, diretor de TI da Sociedade Zoológica de Chicago, que exerce a função de CIO.  “O CIO é um tipo diferente de pessoa”, diz ele.

Um problema de percepção?

“Se as pessoas de TI não estão identificadas com o título de CIO, você tem que saber se é porque elas têm alguma interpretação antiga do papel do CIO”, diz Bill Mayo, diretor sênior de TI da Biogen Idec, que tem aspirações de um dia ser um CIO.

Na opinião de Mayo, o trabalho CIO mudou radicalmente na última década, tornando-se mais, não menos, atraente.

“O CIO costumava ser era uma espécie de nerd capaz de traduzir o hermético mundo de TI para os profissionais de negócios, lutando para conseguir um lugar de destaque no board executivo. Agora, com tanto foco em inovação, o CIO tem emergido como um cara estratégico, com poder de decisão, causando algum desconforto por estar empurrando os executivos e demais colaboradores da empresa para experimentarem coisas novas, processos novos”, diz Mayo. “Tudo está mudando, e até certo ponto, o papel do CIO se tornou muito mais rico e muito mais emocionante. O CIO está em uma posição capaz de agitar as mudanças.”

Na Biogen Idec, por exemplo, Mayo lembra que o ex-CIO,  Ray Pawlicki, passou mais de um ano como chefe interino de recursos humanos, onde sua responsabilidade principal foi redefinir a cultura da empresa de biotecnologia e determinar “como poderíamos inovar e como iríamos trabalhar como empresa. “

No Laboratório Nacional de Idaho, em Idaho Falls, o papel do CIO também mudou e se expandiu, de acordo com Troy Hiltbrand, arquiteto corporativo. Para começar, o CIO do laboratório, que anteriormente se reportava para o CFO, agora é um par do CFO, se reportando diretamente ao diretor-presidente.

“O papel também mudou. Afastou-se da tecnologia e passou a focar mais em como obter operações a um nível ideal e em como em fazer a  tecnologia e a informação alavancarem o  negócio”, diz Hiltbrand.

O departamento de TI também foi renomeado para departamento de Gestão da Informação e está cada vez mais focado na aquisição de software e serviços, diminuindo a necessidade de profissionais de tecnologia altamente qualificados na equipe.

“Estamos vendo uma troca de pessoas que são hands-on para aquelas capazes de gerenciar contratos e estabelecer um nível de serviço e gerenciar um fornecedor para realizar essas diretrizes”, diz Hiltbrand.

Para refletir essas e outras mudanças, segundo Hiltbrand, os funcionários do laboratório estão trabalhando na redefinição de cargos e estabelecendo planos de carreira claros para os funcionários, “para que possamos definir as expectativas quanto ao que é necessário e ao próximo passo que devemos tomar.”

Entre outras coisas, as descrições de trabalho renovadas vão incluir informações sobre como as pessoas, em cada função, devem se envolver com as habilidades técnicas que vão precisar, diz Hiltbrand .

Ao todo, diz ele, os empregados de TI do laboratório necessitam ter mais habilidades de negócios e de comunicação e se voltarem mais para fora do departamento.

Um líder para seguir

Joseph Puzio, um profissional híbrido na Janney Montgomery Scott, não tinha a intenção de buscar o papel CIO quando ingressou na empresa de serviços financeiros da Filadélfia há sete anos. Formado em ciência da computação, Puzio mudou de ideia depois de Bob Thielmann, atual CIO da empresa e seu mentor, assumir o cargo de liderança.

Segundo ele, o conhecimento que Thielmann tem da indústria de serviços financeiros, bem como de tecnologia, o impressionou o suficiente para fazer com que passasse a querer  seguir a mesma carreira.

“Bob participa de reuniões que outros CIOs normalmente não se sentem confortáveis em participar, desde reuniões de estratégia até reuniões sobre um novo aplicativo ou novo fornecedor”, diz ele. “Agora vejo a diferença que faz quando alguém tem conhecimento em TI e do negócio. Isso realmente ajuda apontar a equipe na direção certa.”

Puzio exerce atualmente um papel que também requer conhecimentos de tecnologia e do negócio. “Como profissional de ligação entre TI e negócio,  sei como codificar e configurar um servidor, mas também posso sentar com o profissionais de outras áreas e descobrir o que eles precisam”, diz ele.

As ligações na Janney são cada uma dedicada a seções específicas da empresa – corretagem de varejo, jurídico e compliance, e os mercados de capitais e operações.

De sua posição nesse papel híbrido, Puzio tem observado um aumento no uso de tecnologias de consumo e serviços hospedados. Essas tendências, segundo ele, têm levado a um aumento da dependência de desenvolvedores, em vez da redução da importância do desenvolvimento in-house.
“Há muita ênfase no desenvolvimento, porque é preciso personalizar um monte de SaaS plain vanilla”, explica ele. “Recebemos um aplicativo SaaS e, em seguida, personalizamos ou adicionamos a nossa camada de segurança. Do outro lado, queremos ter certeza de que esses aplicativos funcionam tão rápido como se estivessem alojados aqui.”

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